Chamada de artigos para os próximos números da Revista Desassossego


Vol. 12, n. 22 (primeiro semestre de 2020): O autor na Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea 

Por trás daquela parede fica o céu infinito. Para não morrer de espanto, para poder com isto, para não ficar só e o doido é que inventei a insignificância, as palavras, a honra e o dever, a consciência e o inferno. 

E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.

Húmus, Raul Brandão, 1867-1930 


[...] Somos

um reflexo dos mortos, o mundo

não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto

- as palavras, palavras.

Húmus, Herberto Helder, 1930-2015

 

A literatura no século XX passou por várias revisões da figura do autor no que diz respeito à sua leitura, interpretação e presença na textualidade. De uma crítica centrada na vida biográfica do autor como mote de leitura de seus escritos, decorrente dos ecos de um pensamento romântico novecentista, o autor morre na pena de Barthes e Foucault, para reviver em gêneros híbridos como a autoficção, as narrativas epistolares e ensaísticas.

Quando o foco dos estudos literários recai sobre a narrativa, a crítica já estabeleceu parâmetros razoavelmente estáveis de análise e interpretação do autor. Agora, na poesia e na prosa poética, como opera a figura do autor nos séculos XX e XXI? Herberto Helder, poeta cuja originalidade e pujança criativa passam também pela recriação, assina suas traduções de poemas de diversas origens quando escreve “Poemas mudados para o português”, ou quando abertamente expressa a sua recriação da obra Húmus, de Raul Brandão, seguindo a “Regra: liberdades, liberdade.” Cada autor, em sua poética, representa-se enquanto autor-criador-transcriador presente no texto. 

Autorretratos, poéticas marcadas por especificidades que destacam o autor em meio ao texto em sua forma ou sua mundividência, textos críticos que dão o tom (limitando ou expandindo) da leitura que se empreende: o autor está sempre lá, uma sombra que paira, um morto que existe, uma vida que pulsa. 

A Revista Desassossego celebra o olhar para a figura do autor, o que ele foi, o que ele era e o que ele é, celebrando esses autores atávicos: os 90 anos de nascimento de Herberto Helder e os 90 anos do falecimento de Raul Brandão, suas obras e as produções da literatura portuguesa moderna e contemporânea em que esteja presente o questionamento sobre o autor. 

PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas, entrevistas, textos ficcionais e poéticos para este número serão recebidos impreterivelmente até 20 de junho de 2020. A publicação está prevista para agosto de 2020.

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Vol. 12, n. 23 (segundo semestre de 2020): Fingimento na dramaturgia

A literatura portuguesa, que reflete o ethos português historicamente construído, é eminentemente lírica. Essa premissa, no entanto, não impede que esporadicamente um dramaturgo ecloda das dores fingidas que o poeta deveras sente na reclusão do eu lírico para levar sua história ao palco, através de personagens que, em movimento contrário, externalizam seus sentimentos. O fingimento, aí, é de outra ordem: é o fingimento da representação e, por isso mesmo, real. Como Bernardo Santareno, que parte, em sua poética, de um naturalismo calcado na força das relações em cena à tentativa de um teatro épico ora de cunho histórico, ora político; entretanto, em seus textos permanece presente a potência assim definida pelo encenador Miguel Moreira: “Eu sempre achei que o Santareno tem umas palavras físicas” (Programa de “O duelo”, 2017). 

Motivados pela comemoração do aniversário de nascimento de Bernardo Santareno, convidamos pesquisadores e professores interessados nas questões da dramaturgia portuguesa - especialmente, mas não restrito aos séculos XX-XXI - a submeterem artigos e ensaios sobre as particularidades, importância e inovação da produção dramatúrgica lusitana nas letras portuguesas.

Ampliando o escopo desta chamada, ressaltamos a importância de se pensar o diálogo entre o texto impresso e o texto encenado, uma vez que a dramaturgia, ainda mais depois do advento do encenador no início do século XX, não se dá a ser lida sem a cena. Da mesma forma, incentivamos o envio de textos que revejam os espaços de uma crítica estabelecida, privilegiando aqueles que apresentarem novas leituras de suas obras no cenário teatral português, em perspectiva singular ou comparada. 

 

PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas, entrevistas, textos ficcionais e poéticos para este número serão recebidos impreterivelmente até 19 de outubro de 2020. A publicação está prevista para dezembro de 2020.


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 Vol 13, n. 24 (primeiro semestre de 2021): Literatura, artes e doença

 

aqueles que têm nome e nos telefonam

um dia emagrecem – partem

deixam-nos dobrados ao abandono

no interior duma dor inútil muda

Com esses versos, o poeta Al Berto inicia o seu poema SIDA (Horto do incêndio, 1997), tecendo dores, ausências e vazios, expressos na relação entre a doença, a escrita e a morte. A SIDA (AIDS), sigla que se refere a epidemia iniciada nos anos 80 do século XX, alastrou-se rapidamente pelo mundo, motivando, para além dos estudos médicos, reflexões filosóficas, sociológicas e também literárias a exemplo dos textos de Susan Sontag, entre outros. Desde a Antiguidade, a relação entre a doença, a arte e a literatura é uma constante. Camões já apontava a hidropsia como um mal que motivava o poeta a escrever. No século XIX, a melancolia e a tuberculose fundiram-se no sujeito romântico de tal forma que seria difícil encontrar escritores fora desses contornos. No final do século XIX, no entanto, as doenças foram atadas, na literatura e nas artes, às condições sociais e a partir do século XX e XXI, uma gama ainda maior de enfermidades vem ocupando as páginas da crítica literária. 

Diante do impacto da nova pandemia, a Revista Desassossego convida professores e pesquisadores interessados em desenvolver artigos sobre as relações entre a literatura e/ou as artes e a doença como uma forma de reação, ou seja, a escrita como sentido de viver/morrer.

PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas, entrevistas, textos ficcionais e poéticos para este número serão recebidos impreterivelmente até 26 de abril de 2021. A publicação está prevista para agosto de 2021.