"Atenta como uma antena"

a invocação à Musa e a poética da escuta de Sophia

  • Maria Silva Prado Lessa Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Palavras-chave: Sophia de Mello Breyner Andresen, Inspiração, Invocação, Escuta

Resumo

“Arte poética II” de Sophia de Mello Breyner Andresen, como os demais textos da sequência homônima, apresenta uma teoria e uma interpretação da poesia que revelam sobretudo uma visão de mundo. Tratando-a não apenas como objeto sobre o qual tece suas considerações, Sophia transforma a poesia em um sujeito de exigências e pedidos lhe dirigidos, afirmando que “é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o ‘obstinado rigor’ do poema”. Entre as demandas, sobressai o de que esteja voltada para o “universo” e, em formulação que se torna uma espécie de mote de sua produção, que “viva atenta como uma antena”. A ideia de que o poeta deve estar atento perpassará, assim, sua obra poética. A escuta emerge não apenas como uma “vibração com o exterior”, mas como algo que se dá antes por um ímpeto ou desejo de escutar. Como condição fundamental para a escrita, tal desejo tomará forma, em alguns poemas, em termos de um pedido, de uma prece ou, mais especificamente, de uma invocação a uma Musa. Apresenta-se, assim, um momento anterior à escuta e emerge, no rol das três ações andresenianas – escutar, nomear e fazer paisagens, como aponta Silvina Rodrigues Lopes –, uma quarta: invocar – isto é, pedir para escutar. Dedicamo-nos, portanto, a investigar as relações entre escuta e invocação que se apresentam num poema como “Musa”, de Livro Sexto (1962).

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Maria Silva Prado Lessa, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas - Universidade Federal do Rio de Janeiro , área de Literaturas Portuguesa e Africanas.

Referências

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner; SENA, Jorge de. Correspondência 1959-1978. 3ª ed. Lisboa: Guerra e Paz, Col. Tempos Modernos, 2010.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Obra poética. Edição de Carlos Mendes de Sousa. Lisboa: Caminho, 2010.

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Ed. org. por Emanuel Paulo Ramos. Porto: Porto editora, 2017.

GUSMÃO, Manuel. “Da evidência poética: justeza e justiça na poesia de Sophia”. Tatuagem e palimpsesto. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

HESÍODO. Teogônia: a origem dos deuses. Edição revisada e acrescida do original grego. São Paulo: Iluminuras, 2015.

HOMERO. Ilíada. Trad. e introd. Carlos Alberto Nunes. 25ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

LOPES, Silvina Rodrigues. Exercícios de aproximação. Lisboa: Vendaval, 2003.

MARTELO, Rosa Maria. Imagens e som no mundo de Sophia. Sophia de Mello Breyner Andresen: Actas do colóquio internacional. Org. Maria Andresen Sousa Tavares e Centro Nacional de Cultura. Porto: Porto Editora, 2013, p. 35-45.

MARTINS, Fernando Cabral. “O nome poesia”. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O nome das coisas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2015.

MURRAY, Penelope. “Invocation to the muses”. In: WINNIFRITH, Tom; MURRAY, Penelope (eds.). Greece old and new. London: The Macmillan Press, 1983.

PLATO. The Dialogs of Plato, Vol. 3: Ion, Hipias Minor, Laches, Protagoras. Translated and with comment by R. E. Allen. New Haven and London: Yale University Press, 1984.

RUBIM, Gustavo. “Para que as coisas se vejam”. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Livro sexto. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.

SOUSA, Carlos Mendes de. “Sophia e a dança do ser”. In: Sophia De Mello Breyner Andresen – Actas Do Colóquio Internacional. Org. Maria Andresen de Sousa Tavares/ Centro Nacional de Cultura. Porto: Porto Editora, 2013, p. 130-138.

Publicado
2019-12-31
Como Citar
Lessa, M. (2019). "Atenta como uma antena". Revista Desassossego, 11(21), 10-22. https://doi.org/10.11606/issn.2175-3180.v11i21p10-22