As ciências da linguagem perdem um dos seus brilhantes pensadores: no último dia 24 de fevereiro, morreu Frédéric François

2020-02-28

Foi um grande leitor de Bakhtin e do chamado Círculo sobre os quais escreveu um livro (traduzido para português por Ana Lúcia Tinoco): “Bakhtin completamente nu ou Uma leitura de Bakhtin em diálogo com Medvedev, Voloshinov, Vygotsky ... ou, ainda: Dialogismo: as desventuras de um conceito (?) quando ele se torna muito amplo, mas ‘dialogismos’ assim mesmo”, publicado na revista Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso (Número Especial, organizado por Beth Brait, Dóris de Arruda C. da Cunha, Maria Helena Pistori, 2014). Temos ainda disponível em português artigo, capítulos e um livro: “Dialogismo das ‘vozes’ e heterogeneidade constitutiva do sentido. O ‘literário’: semelhanças e diferenças de acentuação em Volochinov, Bakhtin e Vigotski” (traduzido por Dóris de Arruda C. da Cunha), publicado na revista Fórum Linguístico, v. 13, n. 2, 2016; “A narrativa: espaço do jogo, experiências e reflexão”(traduzido por Pietra Acunha Pereira e revisto por Adail Sobral, Alexandra Del Ré e Luciane de Paula), publicado no livro Explorando o discurso da criança, pela Editora Contexto, em 2014; “’Dialogismo’ e romance ou Bakhtin visto através de Dostoiévski” (traduzido por Lélia Erbolato Melo), publicado no livro Bakhtin, Dialogismo e construção de sentido, 1a edição, 1997; Práticas do oral – diálogo, jogo e variações das figuras de sentido (traduzido por Lélia Erbolato Melo), livro publicado pela Pró-Fono Editorial, em 1996. E em francês, em revistas brasileiras, “Quelques réflexions autour de la lecture bakhtinienne de Dostoïevski: Les Frères Karamazov, dialogisme, communauté et hétérogénéité”, na Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso (n. 4, 2010); e “Sens, sujet, genres ou que faire des grands mots?”, na revista Investigações – Lingüística e Teoria Literária (vol. 15, 2002). Frédéric François foi meu orientador de mestrado (DEA) e de doutorado. Suas reflexões nos seminários, textos e orientações definiram minha vida profissional e me ajudam a pensar até os dias de hoje. Estava sempre disponível para escutar atentamente, ler e reler nossos trabalhos, dialogar, orientar alunos, colegas, amigos e desconhecidos encaminhados por conhecidos. Como pessoa, foi um exemplo de generosidade, bondade, gentileza, humildade, ética, amizade. Quando procurei-o para ser meu orientador, com um projeto de pesquisa voltado para ensino de língua estrangeira, área na qual ele não atuava, ele aceitou, mas deixando claro que eu poderia procurar outro professor posteriormente e que ele assinava o requerimento de matrícula para não haver risco de eu perder o prazo. Sua humildade pode ser vista nos seus escritos onde frequentemente aponta suas “dificuldades” para abordar alguns aspectos do objeto de sua reflexão. Não me esqueço de uma conversa de trabalho onde ele me disse que a diferença entre nós estava apenas na idade e não na sua capacidade intelectual, quando expus minhas dificuldades na realização do projeto do livro sobre “ponto de vista. ” Seus últimos livros mostram a riqueza do seu legado que não é restrito à elaboração de conceitos no campo das ciências da linguagem ou de questões filosóficas, mas revelam a importância do questionar na sua atividade intelectual, do pensar diferente, de defender o seu ponto de vista mesmo contra a maioria: Autour des Cahiers de prison d’Antonio Gramsci, 2018 Récits et commentaires, tours et detours, 2017 Régimes d’expérience et régimes de langage. Quelques remarques et notes de lecture, 2016 Points de vue sur le point de vue, com Marie Carcassonne, Dóris Cunha, Christiane Donahue et Alain Rabatel, 2015 Communauté et divergences dans l’interprétation des récits. Introduction langagière à un projet de psychologie concrete, 2014 Bakhtin tout nu ou Une lecture de Bakhtine en dialogue avec Voloshinov, Medvedev et Vygostsky ou encore Dialogisme, les malheurs d’un concept quand il devient trop gros mais dialogismo quando même, 2012 Essais sur quelques figures de l’orientation, hétérogénéités, mouvements et styles, 2010 Rêves, récits de rêves et autres textes. Um essai sur la lecture comme expérience indirecte, 2006 Interprétation et dialogue chez des enfants et quelques autres – recueil d’articles (1988-1995), 2005 Enfants et récits, mises en mots et le “reste”, avec Régine Delamotte-Legrand, 2004 Le discours et ses entours, essai sur l’interprétation, 1998 Langage, éthique, éducation: perspectives croisées, avec Régine Delamotte-Legrand et Louis Porcher, 1997 Morale et mise en mots, 1995 Pratiques de l’oral. Dialogue, jeu et variations des figures de sens, 1993 La communication inégale: heurs et malheurs de l’interaction verbale, 1990

Recife, 27/02/2020

Dóris de Arruda C. da Cunha